A
reforma trabalhista volta ao centro do debate político na próxima semana, na
Câmara dos Deputados. Na terça-feira (18) o substitutivo ao Projeto de Lei (PL)
6.787/2016, apresentado pelo relator, o deputado Rogério Marinho (PSDB-RN),
será apreciado pela comissão especial que analisa a matéria. A agenda de
tramitação da proposta depende ainda de definição de pedido de urgência pelo
plenário da Casa. Caso seja aprovado, a primeira reunião deliberativa sobre o
relatório deve ocorrer na terça-feira e o texto já poderia ser votado na
comissão no mesmo dia ou na quarta-feira (19). Sem a urgência, a comissão deve
esperar o prazo de cinco sessões para se reunir, o que deve ocorrer em, pelo
menos, duas semanas.
O texto atualmente tramita em caráter conclusivo. Isso
quer dizer que, caso aprovado na comissão, seguiria direto para o Senado
Federal, sem necessidade de passar pelo plenário da Câmara. No entanto, acordo
entre os parlamentares definiu que a medida será apreciada pelos parlamentares
no plenário antes de seguir a tramitação.
Parecer
O
relator apresentou o parecer sobre a reforma trabalhista na última quarta-feira
(12). O deputado consolidou em 132 páginas as sugestões e contribuições ao texto
enviado pelo governo federal. O documento reúne parte das 844 emendas propostas
pelos parlamentares. A medida vai modificar a Consolidação das Leis do Trabalho
(CLT), em vigor desde 1943. Nas primeiras páginas do parecer, Rogério Marinho
apresenta um histórico da legislação trabalhista do país e das audiências da
comissão.
“O
objetivo [da reforma] é modernizar a legislação do trabalho. Não podemos deixar
que a precarização das leis de trabalho impeçam a criação de postos de
trabalho. Nem por isso estamos propondo a revogação de direitos”, ressaltou o
deputado, no parecer favorável à proposta do Executivo de atualização da CLT.
O
relator propõe a adoção da arbitragem, o fortalecimento da negociação coletiva
e outras soluções extrajudiciais para resolução de conflitos. No substitutivo,
o deputado sugere a previsão de “algum risco” para quem ingressar com uma ação
judicial, como o pagamento das custas judiciais. A sugestão também inclui a
regulamentação para o dano extrapatrimonial.
Veja
a seguir os principais pontos do parecer de Marinho:
Negociado
sobre o legislado
Considerada
a “espinha dorsal” da reforma trabalhista, a possibilidade de que, nas
negociações entre patrão e empregado, os acordos coletivos tenham mais valor do
que o previsto na legislação foi ampliada pelo relator. O texto enviado pelo
governo tinha 13 pontos específicos, entre os quais plano de cargos e salários
e parcelamento de férias anuais em até três vezes. O substitutivo de Marinho
aumenta a possibilidade para quase 40 itens.
A
nova redação propõe a manutenção do prazo de validade máximo de dois anos para
os acordos coletivos e as convenções coletivas de trabalho, vedando
expressamente a ultratividade (aplicação após o término de sua vigência).
O
parecer apresentado por Rogério Marinho altera a concessão das férias dos
trabalhadores. A medida enviada pelo governo prevê que o direito possa ser
usufruído em até três períodos. No relatório, o parlamentar define que não é
permitido que um dos períodos seja inferior a 14 dias corridos e que os períodos
restantes não sejam inferiores a cinco dias corridos cada um. Além disso, para
que não haja prejuízos aos empregados, vedou-se o início das férias no período
de dois dias que antecede feriado ou dia de repouso semanal remunerado.
Para
Marinho, ao se abrir espaço para que as partes negociem diretamente condições
de trabalho mais adequadas, sem revogar as garantias estabelecidas em lei, o
projeto possibilita maior autonomia às entidades sindicais, ao mesmo tempo em
que busca conferir maior segurança jurídica às decisões que vierem a ser
negociadas.
Por
outro lado, a lista de pontos previstos em lei que não poderão ser alterados
por acordo coletivo chegou a 29. O projeto inicial proibia mudanças apenas em
normas de segurança e medicina do trabalho. O novo texto, prevê, entre outros,
a liberdade sindical e o direito de greve; FGTS; salário mínimo; décimo
terceiro salário; hora extra, seguro desemprego, salário-família; licenças
maternidade e paternidade; aposentadoria; férias; aviso prévio de 30 dias; e repouso
semanal remunerado.
Fim
da contribuição sindical obrigatória
No
parecer, Marinho propõe que a contribuição sindical fique restrita aos
trabalhadores e empregadores sindicalizados. O desconto do pagamento da
contribuição, segundo o substitutivo, deve ser feito somente depois de
manifestação favorável do trabalhador ou da empresa.
“Criada
em uma época em que as garantias constitucionais estavam suspensas, a
contribuição sindical tem inspiração claramente fascista, uma vez que tinha
como principal objetivo subsidiar financeiramente os sindicatos para que dessem
sustentação ao governo”, afirmou Marinho.
O
tributo é recolhido anualmente e corresponde a um dia de trabalho, para os
empregados, e a um percentual do capital social da empresa, no caso dos
empregadores. Segundo o deputado, o país tem 17 mil sindicatos que recolhem R$
3,6 bilhões em tributos anualmente.
“Não
há justificação para se exigir a cobrança de uma contribuição de alguém que não
é filiado e que, muitas vezes, discorda frontalmente da atuação de seu
sindicato”, destacou o relator. Para Marinho, os sindicatos se fortalecerão com
o fim da obrigatoriedade da cobrança de um dia de trabalho por ano, e a mudança
vai acabar ainda com instituições sem representatividades, o que chamou de
“sindicatos pelegos”.
Trabalho
intermitente
A
proposta de Marinho prevê a prestação de serviços de forma descontínua, podendo
alternar períodos em dia e hora, cabendo ao empregador o pagamento pelas horas
efetivamente trabalhadas. A modalidade, geralmente praticada por donos de
bares, restaurantes, eventos e casas noturnas, permite a contratação de
funcionários sem horários fixos de trabalho. Atualmente a CLT prevê apenas a
contratação parcial, aquela cuja duração não exceda a 25 horas semanais.
No
trabalho intermitente, pode haver a prestação de serviços de forma descontínua,
alternando períodos em dia e hora, cabendo ao empregado o pagamento pelas horas
efetivamente trabalhadas. O contrato de trabalho nessa modalidade deve ser
celebrado por escrito e conter o valor da hora de serviço.
O
empregado deverá ser convocado para a prestação do serviço com, pelo menos,
três dias de antecedência e responder em um dia útil. Ao final de cada período
de prestação de serviço, o empregado receberá o pagamento da remuneração, de
férias e décimo terceiro proporcionais, além do repouso semanal remunerado e
adicionais legais. Segundo a proposta de Marinho, o empregador deverá recolher
a contribuição previdenciária e o (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) FGTS.
Trabalho
terceirizado
O
texto proposto por Marinho retira as alterações de regras relativas ao trabalho
temporário. A Lei da Terceirização (13.429/17), sancionada em março, já havia
alterado as regras do tempo máximo de contratação, de três meses para 180 dias,
consecutivos ou não. Além desse prazo inicial, pode haver uma prorrogação por
mais 90 dias, consecutivos ou não, quando permanecerem as mesmas condições.
Com
o objetivo de proteger o trabalhador terceirizado, a medida estabelece uma
quarentena de 18 meses entre a demissão de um trabalhador e sua recontratação,
pela mesma empresa, como terceirizado. Além disso, garante ao terceirizado que
trabalha nas dependências da empresa contratante o mesmo atendimento médico e
ambulatorial destinado aos demais empregados. A lei atual permite, mas não
obriga a empresa a oferecer o mesmo tratamento.
Pelo
novo texto da lei, quando o número de terceirizados for acima de 20% do total
de empregados diretos da empresa, ela poderá oferecer serviços de alimentação e
atendimento ambulatorial em outro local, mas com o mesmo padrão.
Para
evitar futuros questionamentos, o substitutivo define que a terceirização
alcança todas as atividades da empresa, inclusive a atividade-fim. A Lei de
Terceirização não deixava clara essa possibilidade.
Teletrabalho
O
Brasil tem atualmente 15 milhões de teletrabalhadores, ou funcionários que
desempenham suas funções a distância. Nas empresas privadas, 68% dos empregados
já adotam a modalidade. Os dados fazem parte de um levantamento produzido pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Essa modalidade de
trabalho é regulamentada pelo texto de Rogério Marinho.
Pelo
substuitutivo, o contrato deverá especificar quais atividades do empregado
poderão ser feitas na modalidade de teletrabalho. A alteração do trabalho em
casa para presencial - na empresa - pode ser feita por acordo mútuo entre empregado
e empregador. Em caso de decisão unilateral do empregado pelo fim do
teletrabalho, o texto prevê um prazo de transição mínimo de 15 dias. A compra e
manutenção de equipamento para o chamado home office devem ser definidas em
contrato.
Multas
O
relatório de Marinho manteve a redação do projeto original na íntegra no item
referente à aplicação de multas administrativas na inspeção do trabalho. A
existência dessas multas não exime os empregadores de responsabilização penal.
O Planalto prevê que o reajuste anual dos valores das multas administrativas
expressos em moeda corrente pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo
(IPCA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ou pelo índice
de preços que vier a substituí-lo.
Em
outro ponto, o parecer aborda a multa pelo funcionário não registrado.
Atualmente, é cobrado um salário mínimo (R$ 937). Na proposta do governo, o
valor passaria para R$ 6 mil. O relator, no entanto, estipula multa de R$ 3 mil
para empresas de grande porte e de R$ 800 para micro e pequenas empresas.
Ativismo
judicial
O
parecer incorpora normas para diminuir o número de ações na Justiça do
Trabalho, o que o relator chama de ativismo judicial. “Temos, hoje, uma
coletânea de normas que, em vez de contribuir para a rápida conclusão da
demanda, têm sido um fator preponderante para o estrangulamento da Justiça do
Trabalho”, disse.
Entre
as medidas propostas, está a previsão de que a assinatura da rescisão
contratual dos empregados seja causa impeditiva para o ajuizamento de
reclamação trabalhista. Outro ponto é a limitação de prazo para o andamento das
ações. “Decorridos oito anos de tramitação processual sem que a ação tenha sido
levada a termo, o processo será extinto, com julgamento de mérito, decorrente
desse decurso de prazo”.
“Foram
incorporadas normas que visam a possibilitar formas não litigiosas de solução
dos conflitos, normas que desestimulam a litigância de má-fé, normas que freiam
o ativismo judicial e normas que reafirmam o prestígio do princípio
constitucional da legalidade, segundo o qual ninguém é obrigado a fazer ou
deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei”, ressaltou o deputado.
